quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Irracional

Surge, com o desaparecimento do magnífico sol de verão
A incontrolável vontade de fugir, sumir, desaparecer
Vontade de ver a existência pelo oculto olhar do não ser
Vontade de juntar o corpo em frangalhos e colocar-se no chão

E de dentro dele, observar o mundo a construir-se em vão
Sabendo inútil toda a variedade de idéias e pensamentos
Que em verdade nada são para o mundo, fuligem querendo ser cimento
Pois com o homem, animal, tudo é via de trazer ao corpo satisfação

E não me venham falar em filosofia,
Nela tampouco há razão
Razão que só se vê no corpo que morre
Verdade única, essencial
Que escapou às mãos do homem
E de toda e qualquer prestidigitação

Por isso, te digo, meu pequeno peito
Não se infle com esse amor que te ofertam
Pois o poeta já dizia:
“o beijo é a véspera do escarro”.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Amor Outonal

Ainda hoje sinto
Diante de tua imagem
Um frisson
Que me impele
Aos passos infantis
Da criança que se descobre
Homem, amante e pobre.

Coitado daquele que
Em seus dias mais tenros
Não procurou os braços
De uma pequena dama.
Nos dias em que
As brincadeiras perdem a cor
E sente-se, pela primeira vez
Que já se ama.

Pois não importa o quão parca
E torpe seja hoje a vida.
Aqueles dias
Que há tempos já se foram
A memória há de sempre
Perpetuar.

Naquelas tardes outonais,
Excedido o verão da infância,
Na busca incessante
Pela crueza mundana,
Através do arrepio intimador
Que só se faz possível no amor.

É pena que a leveza ingênua
Que em tal época se faz plena
Se perca na dança trêmula
Da vida a se devassar.
O cotidiano acaba então
Por ultrapassar
Com sua lentidão rotineira
Àqueles momentos,
Sublimes toques, pequenos,
De gentilezas no olhar,
De sentimentos ternos,
Que podemos não mais ter,
Porém, impossíveis
De apagar.

E se é em sonho,
Que seja,
Mas a primeira
Que atraiu
O olhar
Sempre será
De onde
Trarei as forças
Para poder
Continuar
E quem sabe,
Um dia,
Sorrir novamente
E me enamorar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fevereiro (palavras e devaneios)

Fevereiro
forte
fogueira
onde ferve
o carnaval.
Desperdiçando,
despedaçando,
sonhos
verdadeiros.
Fomentados
ano inteiro,
pra morrer
maduros,
embriagados,
em farrapos,
desordeiros.
E da vida
que se segue,
em cuja pureza
ancestral,
descansa
o canto
costumeiro,
da dama
virginal
mitigada
pela fome,
pelo animal,
que entorpece
a nobreza
de teus
antigos
beijos
primeiros.
Inebriada,
vai em frente
sofrer decerto
humanamente
o amor que escapa
por entre os dentes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Passagem das Horas (Ode Sensacionista) - Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida —
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...

Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
O baú das iniciais gastas,
A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
A Brígida prima da minha tia,
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!
Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida...

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavisnio,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
Não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido
Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho ... Helahoho ...

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho ----

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
Rola ...

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
Tosse seca, nova do que sai de casa,
Leve arrepio matutino na alegria de viver,
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
Inevitavelmente vital,
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...

Toda a madrugada é uma colina que oscila,
...................................................................
... e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
Do rodopio parado da minha retentiva seca,
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
Passeio lojistas "perdão" rua
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objetos projéteis!
À moi, todos os objetos direções!
À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as idéias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
...............................................................
...............................................................
...............................................................
...............................................................

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

Álvaro de Campos, 22-5-1916

Não, Não é cansaço...

Álvaro de Campos


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Recolhimento (Recueillement)

CHARLES BAUDELAIRE

Sê sábia, ó minha Dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a tarde; eis que ela vem descendo:
Sobre a cidade um véu de sombras se projeta,
A alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
Sob o flagelo do prazer, algoz horrendo,
Remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
Dá-me, ó Dor, tua mão; vem por aqui, correndo

Deles. Vem ver curvarem-se os Anos passados
Nas varandas do céu, em trajes antiquados;
Surgir das águas a Saudade sorridente;

O sol que numa arcada agoniza e se aninha
E, qual longo sudário arrastar-se no Oriente,
Ouve, querida, a doce Noite que caminha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Florador

Pra saber que dia é hoje,
teria que dizer alguma coisa...
Mas que coisa?
Todas as coisas já foram ditas,
inúmeras e incontáveis vezes.
Pra saber o que dizer,
deveria ter o que beber...
Mas pra quê?
Se dizer, já não mais vale
que o trago que suspiro
do copo que me absorve.
Pra beber qualquer bebida
Teria que fumar uns cigarros...
Mas se o fogo que o acende
já não é o que motiva
mas o que consome,
vale a pena preservar
o vício de ser homem?
Pra ser homem deveria
ter nas mãos cada vida,
palpite, voto e decisão.
Mas por quê?
Se só se vive
apartado, iludido,
embriagado de indecisão.
O melhor é ser o fruto tardio de uma árvore que simula florir pouco a pouco, dia a dia, flor a dor em cada estação.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Se fosse Deus, comeria as montanhas
Entornaria sua seiva num desvario
Na vontade de ver suas entranhas
Beberia todos os rios

Mostraria aos homens que não adiantam os santuários
De ouro negro, suor vermelho e sangue frio
Os faria ver que todas essas coisas me são alheias
Que os meus ídolos são sol, lua, calor e frio

E que não adianta chamar
Pois palavras não há pra alcançar
E que na vontade de encontrar

Não adianta se consternar,baixar os olhos, rezar
Pois seria todo o mundo, pessoa e lugar
Viver é a única oração que se pode dedicar
Se eu algum dia encontrei poesia
Foi nos desvarios, nos sorrisos torpes
Que somente vamos encontrar no baixo ventre
Nas esquinas solitárias de ruas tortas

Não há poesia que não faça curva
E vida que seja essencialmente luminosa

Ela só se dá quando cai o véu
As ruas expõem sua face nua
Onde donzelas ofertam sua carne crua
E andaimes nos mostram o céu

Homens andam atabalhoados a perder o ócio
Ocupações mil – compro ouro e outros
Ali está posta a poesia que sobrevive à ruína
Por trás da cegueira de todo o negócio

E ainda tem os meninos, pequenos saltimbancos
Brincam, brigam, pedem, assaltam
Só não se sabe se chegarão a ter idade para os bancos
Talvez, algum que seja talentoso e versado na arte da sociedade
Roubo também é propriedade.

E no meio, caminha solitário algum desajustado.
Um cigarro entre os dedos, caneta no bolso,
Sempre pronto a inutilizar alguns versos
Idéias na mente, vontades ardentes
De ver toda e qualquer poesia,
Por mais feia, bandida, ou vadia.
Mutar-se em canção inocente.

Beatriz

Esta noite, como em raras noites, sonhei
Você me apareceu, tensa e amargurada
Cabelos que indicavam tormenta e tempestade
Vontades que ultrapassavam qualquer realidade

E eu, como sempre, estupidamente desajeitado
Lancei-me sobre você e pela primeira vez
Nossas almas se tocaram, corpos se enlaçaram
Quis de modo desesperado carregar seu fardo

O amor se deu de forma limpa
Suave e denso como um rio lento
Que a ácida chuva ainda não tocou,
Não teve a ousadia de provocar

Neste dia, foi imensamente difícil acordar
E lembrar-me das tuas mãos aneladas,
Da tua fronte limpa, infantil.
Que a dureza do meu corpo pensou um dia
Poder beijar.

E agora, que te encontras mais distante
Fico a lembrar-me da alegria dos cafés
Dos cigarros que fumei parar te esperar passar
De como o doce de tuas palavras
Retiravam o veneno das minhas

E vejo que tudo que fiz, não foi nada além
De, na fumaça que se esvai, te representar
Continuo a fazê-lo, consciente
Pois pra mim, se algo é impossível
É te esquecer, Beatriz, deixar de te amar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O mundo é feito de homens
Que tão diferentes fazem a vida
E a fazem de forma tão confusa
Como gotas que caem ao simultaneamente,
Mas não são a mesma chuva

Se a vida é uma só
Não deve haver melhor
Calar é também falar,
Ouvir também é ver,
Sentir, pensar

Porém, se as distâncias nos tornam diferentes
Na batida em que nós fabricamos as teias,
Densas e resistentes; não passam de posses,
Poderes, pó ou areia

Já é tempo de desfiar esse tecido,
Desafiar todo o sentido,
Despir a nu cada indivíduo.
Como garotos que brincam na tempestade,
Como soluços bêbados de amor no telhado.

E, pela primeira vez, olhar
Não para o que dista de nós,
Para o que chega até aqui
Deixa um abraço,
Faz o favor de pedir um favor
Ao mostrar-se
Feliz, doloroso, admirado, perdido...

29/12/2009 mas foi feita amanhã...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ironia, como amo a ironia! Que belezas ela esconde!
A ironia é um jeito mais direto de dizer meias palavras.
É uma gargalhada pra dentro. Dama sagaz em línguas permissivas.
Se te pareço sério, devias ver o que se fez da minha vida quando ainda muito jovem
Se triste, era pra você saber o que motiva a minha mágoa agora velha
Se sonambólico, é que o sono não dá conta da visão desses futuros
Se soturno, é que não posso ver para além da alegria dos que morrem

Exposto está o que há de verdadeiro no meu corpo que apodrece
Não há alma saudável que não se enferme nesse mundo já doente
Sorumbático, caminho sob a vontade do mundo
Não por culpa deles, mas pela minha, de ficar mudo.

Me apoderaria de coisas para além das coisas
Faria votos para além do mortos
Veria belezas que não ocultassem certezas
Cantaria canções que não, apenas, prantos

Seria o irmão dos desconhecidos,
O anônimo dos amados,
O amigo dos que se rejubilam
A sede de homens que, leves, cintilam.

Mas perdi todo o muito mais o que dizer.
Termino sorumbático, só porque tenho.
Mas não imaginem vocês que toda vida é desprazer...
Essa é uma tarefa só minha, algo pelo que me empenho.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fuga em Dor Maior

Gosto das fugas sinceras,
Dos que assumem o desgosto.
Não chegue à minha frente
Como quem se alegra!
Tampe a falsidade do seu rosto...
Veja que é feliz o que sente –
Já que nada é o que nos dá,
O direito de franzir o corpo
E fingir que não é gente
Aquele que nos pediu pra amar.
Estão enferrujados
o ferro e a solidão,
o jugo com sua casa,
o medo e a noite vasta,
porém o sonho não.

Estão enferrujadas
a morte e sua aljava,
a faca sob a toca,
porém, o braço não:
quando se ergue, corta.

Carlos Nejar



Copiei de outro blog, se fez inevitável.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dança

Para onde quer que fujamos
O viver-se é inevitável
Não há maldições sem ter planos
De ver todo o inefável

Saímos, então, a correr pelo salão
Eretos em heresia com valsa
Bailando a morte, a dor de quem vê o chão
Mas não vê os pés que se movimentam

Perversos são sim os brancos sorrisos
Da gente amarela que dança a música
E não quer fazer-se para além do impreciso
Jogo de pernas de uma valsa singela

Dancemos aqui ou acolá
Porque mais que o ritmo mude
Por mais que os pares se separem
Será sempre a mesma melodia a tocar.

Viagens

Até hoje, todos os dias e os do porvir
Viver é conviver com a impossibilidade dos possíveis
Existir sob a égide da frustração e sorrir
Amar os porões e devanear sonhos inacessíveis

Trazer ao peito a dor de saber
Saber-se dor, ouvir as portas fechar
Tomar-se por elevado, oco ao quadrado
Beijar o seio e se alimentar do vago

Nadamos no onírico, desarranjado fazer
Na vanidade que aborrece cada subsistir
Sorrindo farças às lâminas, ao poder

Mas, se só lágrimas nos vem às faces
O que é pra ser?
Não há viagens que acabem sem disfarces.

Gustav Klimt

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Caustica
segue minha poesia
por estas linhas tao tortas
revivento, no momento,
tantas palavras ja mortas.

Nautica
distancia entre o saber
e o fazer, que separa
o homem e o seu dever
natural de consciencia.

Plastica
relaçao que acentua
tal distancia entre homens,
transforma, entao, de nua
em vestida, a verdade.

Tatica
e sub-repticiamente
insinuam-nos os planos
vis, de, em detrimento
do homem, im
*plantaçao da

Tecnica,
mitigadora do Ser,
reino e multidominio da
pluralidade do ter,
pura idiossincrasia

Mitica.
Movimento todd o mundo
em busca daqueles deuses
que o tragaram ao fundo
de seus recessos obscuros.

Critica
e avidamente lanço-me
a arrancar do futuro,
antes que o presente tome,
poesia, triste rumo.

Eduardo Cruz

domingo, 8 de novembro de 2009

Willian-Adolphe Bouguereau

Madrugada

Mais uma madrugada em casa.
Mais uma dose de mim,
só pra tornar a coisa toda mais sinistra
Só pra dotar o peito daquele fervor, é ruim.

Mais uma garrafa de café que se vai
E com ela todos os cigarros do maço recém adquirido
Vou fumando, um atrás do outro,
Como se eles agregassem às coisas algum sentido.

Fico pensando em dias passados
Todo nostálgico, querendo rever a saudade
Querendo pensar que tudo ainda tem seu tempo.

Porém, a cada dia, cada sensação,
Não vejo nada além do irreversível de toda situação.
De toda a loucura em que me imiscuí
e onde me eximi de todo pecado de agir.


07/11/09

Sulfúrico

A cada dia que passa eu penso menos! É penoso ver como, agora, prostrado, desfaleço diante desse desagradável viver. Cotidiano é tudo aquilo que pesa sobre olhos cansados, falta é presença única em todos os momentos. Tudo se transfigura num desejo pálido, nada sensual, morbidez que leva a vida adiante. Sem mais, nem menos.
Hoje, nem o ópio consola, não há orientes. Horizontes perderam sua felicidade, ganharam verticalidade; poesia já foi feita, hoje tudo é análise. Não se pode mais perguntar os inocentes por quês, é melhor se resignar e comprar um já pronto.
Amar se torna tarefa impossível, tentação sofrida, violência mitigada por todo o aço. Aço que é invólucro de toda subjetividade, protetor de ouvidos contra qualquer palavra afável, do corpo contra todo gesto.
E já que, "num rosto vazio até um arranhão é um enfeite": escondo os arranhões cá dentro, bem fundo, para que não se observe nada nos vazios das minhas farsas ou faces.
Todos os pontos se tornaram incomuns, não há mais retas para ligá-los, acabaram-se. Ganhamos a cada passo uma fluidez sulfúrica, dolorida, e só quem sente é aquele natimorto, sentimental, convulsivo. Aquele que não coincide com sua imagem no espelho e que há muito já foi ultrapassado por sua sombra.

Quantos dias cinzentos a vida me reserva?
O incrível é que, talvez?, sejam todos eles sempre cinza. Afundados em sua objetividade malquista, num mundo de subjetividades idiossincráticas.

Testamento

Nesses poucos e curtos anos já recebi o meu pão
Em mãos afetivas aprendi a chorar
Senti que o mundo se encaminhava na solidão
Vi amigos partirem sem que os pudesse segurar

Queimei minhas mãos ao tentar apertar
Àqueles que por longo tempo julguei ter paixão
Amei a todos que vi caminhar
Por sendas ecuras em comunhão

E a cada imagem, cada sensação
Vi meu erro, o primeiro, se perpetuar
Quis mudar, colocar meus pés no chão

Fazer de minha vida um desvio do olhar
Tentar me livrar de cada sentimento vão
Mas não consegui deixar de amar,
Irmão.

...

Nada me desce
Todos são estranhos
Mas acontece
Que só em sonhos
A vida aquece a
Todos como somos...

Bêbado

Idéias divergentes sobre objetos parecidos
Objetivos próximos por caminhos esquecidos
Fados idênticos para ombros cansados
Ser humano não é fazer o mundo exato

Tragar cada cigarro como se a vida fosse
Faz sentir o mundo para além da tosse
Onde toda tolice tem seu lugar
Com a impertinência daquele que deixou de lutar

Oração

Mas, ah, se eu não vivesse essa loucura!
Meu deus que seria de mim sem essa boca seca?
Sem essa falta de sono e essa cerveja posta como um fardo?
Teria que rever as minhas vestes e andar preocupado.

Sou miserável apenas por pertencer a cada lado
Tenho tomado distâncias de um mundo
Que me pertence menos a cada segundo
E, sinceramente, todo minuto é enfado.

Tenho apenas a falta de meus vícios
Não há mais volta para eles e, pra mim
Já, desde muito não há, inícios.
Consumi o todo e o por fim

E, daqui, vejo o foda-se em tudo para nós.
Obrigado meu deus!
Por ter me dotado dessa profissão,
Descrença é o que tenho em cada pedaço de vós!

Se

Se não é nossa culpa, sinto muito, mas não sou um de nós.

Poesia?

Um amigo me pediu um dia
Para que fizesse um verso
Que ensinasse a fazer poesia
A verdade é que nunca fiz verso,
Nunca rimei. Não sei criar o que não se cria
Só sei ver o que detesto
E por pra fora o que me angustia.

Se for assim que se faz
Não quero ser poeta
Quero esquecer agora
Que já me escrevi um dia

Poeta é gente mais prosa
E eu só tenho as brincadeiras
Dum peito que ferve em tormenta
E nunca silencia.

Amaram

Amaram-se em pequenas palavras
Em poucos instantes se olharam
Ficaram suspensos em suspeição
Vibraram com a fuga de qualquer emoção

Quiseram até o ultimo instante
Olhar pra qualquer outro olho,
Ouvir qualquer outra tosse
Tocar qualquer outro corpo

Mas cederam sem perceber
Cederam à mais vaga possibilidade
A mais vaga possibilidade de se perder

Perderam-se então,
em olhares convulsivos,
em verdades que se fazem no chão

Urbanissimulador

Os carros me vem de encontro.
Fumaça, ruídos, motores, faróis, gente...
Peraí! Gente!?
Desconhecida gente interessada,
mas não em mim, claro!
e nem eu neles, óbvio!
Prefiro os carros...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ponderações

O que poderia querer
para além de ser humano?
Poderia querer ver
como uma águia, mas imagino-me tal como.
Talvez quisesse ser líquido,
mas posso ser chuva
quando o nosso tempo está seco.
Poderia querer ser tempo,
mas me contento,
sou o presente.
Quereria ser, talvez,
a representação que de mim fazem os outros,
porém, fico feliz, também eu, em desumanizá-los.
Deveria ser criança, mas já, agora, não há infância.
Me perdi,
ficarei por ser assim.

Futuro

Como saber do porvir se tão pouco dele está aqui
Se somos tantos e tão poucos? Com a selvageria de nossos rostos
Conseguiremos fazer sorrir a esse presente já passados
Cada tijolo desses nossos muros por construir?

Com que miríade de loucuras chegaremos lá?
Queremos tanto, mas sem olhar
Sabemos daqueles dias em que toda a distância
Se fará dessa infância.

Todo o pesar e todo contentamento se farão nobres
A caminhada se faz junto aos espíritos pobres
Ou não? Sabemos que o agora nem é pouco nem muito

Já não tenho certeza do que tenho nas mãos
Mas sei que tenho, e tenho a terra dos meus próprios chãos.
Com que presente chegarei a ser futuro?

Em excesso

Sofro de excesso de excessos, não sou exceção!

Paulo

Paulo,
não esqueci
da poesia
e
nem
da dor
continuo
caminhando
de lado.

Para alguém que me entenda

Me espere só um segundo,
Só pra ver como dói a sinceridade,
E como é verdadeiro aquele olhar que te dirigi.
Como pode ser perfeito o ideal,
Ideal de dor que persegue a nós dois, moça.

Queria ter coragem para lhe mostrar esse seu mundo,
Mundo de fugas, de aparências cultivadas.
Que queres tu, com a tua modernidade,
És, na verdade, menos contemporânea a cada dia
Bêbada como hoje, mas conformada como ontem.

Pensa um pouco mulher, como pode ser?
Queres guiar? Então, guia!
Mas pensas antes de me beijar, e,
Se calhar, morda-me o lábio até sangrar.

Desse modo saberei o que você realmente deseja.
Retira-me a sanidade de uma vez!
Bata-me na face, corta-me a garganta,
Por favor! Se não for assim, eu não aceito.

Deus-tino

O que achas que pode contra mim, meu senhor?
Não és tão grande quanto lhe atribuem os tolos,
Em nada és forte, teu culto já não existe em meu mundo
Queres deixar-me em maus lençóis mas, desconheces minha natureza
A fundo, és tão podre, se baseia apenas no infundável de minha vida
Sou imoral porque posso sê-lo, não me dizes nada sobre o que posso,

Sou surdo a seus esforços, não me puxe com o seu braço maldito.
No meu mundo não há musa e não há moira, entendes?
O meu mundo é dos homens factíveis, dos reais.
Dos viciados, dos imorais, esses são a minha imagem e semelhança.
Não é você que só não morre por não existir! Malditos sejamos nós!

Contraditórios em nossas preces
Somos seculares diante do divino
E divinos diante do secular.
Atenção!
Sejamos humanos!
Só isso deve ser respondido,
Diante de todas as perguntas
Afinal de contas, que mais nos resta.

Sou o que sou, amaldiçoado ou não.
E que me importam as maldições?
Todas frutos de perversões de nosso olhar
que faz o possível pra se desviar daquilo que é evidente.
Senhor destino, lhe reservo um beijo frio
O beijo daquele que sabe que nada mais é possível diante da sua figura.
Figura que já há muito não é pintada.

Rubros Olhos

Sábado às dez pras quatro da manhã
Só me resta a última dose da garrafa de conhaque
Uns vagos pensamentos sobre as coisas que deveria ter feito
Mas, em contrapartida, muito do rubro de seu cheiro.
A comoção me invade,
fico pensando no silêncio que nossas poucas palavras fizeram

Fico imaginando teus olhos que ainda brilham diante dos meus
Brilham raros, não são olhos que se dêem ao desfrute
E por vezes, se recusam, sublimes, a olhar.
Como poderia ser diferente, meu deus minúsculo?!
Isso me proporciona mais um gole de angústia.
O que devo esperar?

Não sei se fiz a mais ou a menos,
sei que fiz o que pude, e,
poder pouco é muito comum!
me desacostumei das palavras,
sentir me causou esterilidade verbal.
somente aos olhos e aos ouvidos cabem minha felicidade.
E se sinto é só por uma vontade que me escapa ao controle.

O problema,
É que,
Diante
Dessa face
Rubra,
Só me resta,
Abandonar
A razão.

Não poderia fazer nada além disso,
a vontade quer chegar à potencia.

Anaesthesis

The show must GO on
E eu nem sei pra onde vai, se é que vai
Mas é aí que vem a certeza do incerto
A justeza do incorreto, a ética da transgressão
É nesse ponto que bate a saudade
Dos tempos em que ser humano era descomplicado
Onde suas palavras só diziam o que diziam
E não havia hermenêutica capaz de subvertê-las
Mas, houve um tempo assim?

E eu nem sei como, se é que há jeito
Como poderia haver algo além de nós
O nós do agora. o do ontem? já não sei...
O do amanhã? eu duvido muito...
Porque haveria, também, de me preocupar com o amanhã?
Já me basta a incerteza do agora.
Turbilhão de sentimentos que nem parecem ser o que são
E talvez nem o sejam mesmo.
E que certeza é sensível?

Tenho andado confuso, perder o chão é fácil
O problema é ter que estar segurando os pavimentos
Essa construção que nem lógica tem!
Tenho nas mãos os sustentáculos de um conjunto vazio
Os julgamentos de um nobre, os hábitos de um burguês, as condições de um miserável.
Dá pra acreditar?!?!
Só poderia fazer algo que me dispensasse daquilo que pretende o mundo.
Nada, na verdade, era isso que eu gostaria de ter
Uma posição de observador, um deus nada poderoso
O sábio da vida comum, reprodutiva
Nada produtiva, sem métrica e sem lógica, como esse poema
Que eu nem sei se é poema, confissão, desabafo ou profissão de fé
Profissão de fé na descrença, só se for!

Queria poder rimar e dizer coisas belas, realmente interessantes, mas agora...
Agora ficarei mesmo é com essa anaesthesia
Geral! Dormência, desinteresse, desgosto, desdém...
Não quero nada além daquilo que não posso ter
Poema régio, José! de dores e ambigüidades
Vacilações sublimes, bipolaridade, tensão...

But, the show...
Fechem as cortinas, já é tempo!
Estou tão fragmentado hoje que deveria começar a andar por aí, me catando pelo chão.
Quem sabe no fim eu não encontro alguém?
Waiting for the worms or the wars. That’s all!

Mortuário

Se querem me matar, que o façam logo!
Não perguntem o modo, não me perscrutem
Não direi uma única palavra a respeito disso, de nada.

Não lhes darei dicas sobre a minha forma de minguar
Acabarei através da surpresa, pela criatividade de vocês
Sem saber que acabo ou que já não existo.

Não me farei morrer como imagino,
Minha mortalha está já reservada para todos visitarem
Descansarei como sempre, mas com um detalhe - será o descanso de um humano.

Saibam que mesmo sem encostar em mim
Entendo o que dizem, me encurralam em seus olhares
Me dão a força daquele que será reprovado sempre

Do rebelde, que não se curva diante de um amor insosso
De quem precisa de mais, de quem quer sempre ir além
Fazer-se junto, e mais, fazer-se homem.

Vocês podem até conseguir me enquadrar, me moralizar,
Fazer-me curvar, mas isso será uma morte, a morte que vocês não planejaram.
A minha morte, essa não é assim – é humana!

Me recuso terminantemente a cumprir regras,
Não firmarei acordos, não serei partidário de vocês,
Serei humano até o fim!
Cantigas de invencionices permeiam o meu peito
Este urra, retumba, ecoa, parindo sentimentos
que dançam ao som dessas canções
Minhas costelas vibram com cada nota
Eis que torno-me escrava desse parimento
intermitente, convulso, incontrolável.

Já não caibo mais em mim...
Também quero virar canção
viajar junto ao vento
sorrir em cada rodopio
florear entranhas
sussurrar poesia em cada esquina.

Michele de Assis

Deita

Deita-me à tua sombra mulher
Finge que por ao menos um mínimo instante fui teu

A verdade é que olhos ao olhar pra teu semblante
Viram apenas o que estava oculto,
se preocuparam tanto com as profundezas
que se esqueceram da superfície

Deixe-me descansar em teus braços,
Faz um esforço em pensar que assim permanecerei

Eu nunca te quis olhar como olhei,
Nunca te quis ver como vi, mas desnudo já desde tão cedo...
Não tive escolha, e hoje, agora
Não sou nada além de um já passou.

Deixe-me fingir-te a felicidade uma última vez,
A felicidade que nunca alçou vôo sobre a minha cabeça
A felicidade que por ser ave de rapina nunca se interessou
Na minha carne sempre a mostra, carne que já nasceu decomposta

Deixa eu te dar um último olhar,
aquele que persegui a minha vida inteira
o olhar despretensioso, de quem já chegou
de quem já cumpriu, de quem já gozou

depois disso, pode deitar-se à sua cova e,
então, fazer cumprir teu desejo, aquele
de sumir de minha memória, de sumir
com a minha memória, com a minha vontade de ti.

Pensamento Metafísico

Hoje sou dono da minha própria metafísica!
Mas e se não houver deus?
Vou ter que me candidatar...

Para Baudelaire

O rebelde não precisa de anjo que lhe force a amar o pobre, o aleijado, o leproso, pois ele já o faz naturalmente quando dirige seu olhar àqueles que se assemelham a ele. O rebelde é o aleijão desse mundo. Todos os outros são ímpios.

Entificação

O que queres meu filho
Está tudo aí!
Transforma-te no que tu és
Hoje és todas as coisas,
Mas está tudo em ti
Não precisa ser as coisas
E o que são as coisas?
Sem ser o que és não há coisas,
Nunca há.
Sirva-se de mim e de você
Não das coisas
Não és uma delas
Tome-me em teus braços
Quem precisa dessa parafernalha,
Quem precisa das coisas?
Essas tuas forcas, falsas forças
Não são teu ser e nem o meu.

O Noivo

Noivo de minha solidão espreito a um outro dia
Querendo ser mais do que ser, quero agonizar no gozo
O gozo da fortuna, do acaso, daquilo que ainda não é
Do que sou.

Gosto de ter entre os dedos a mais impura das águas
Aquela que desce dos céus de uma selva irrazoável, humana
Toda cidade me traz ao peito a angustia de minha solidão possível
Da minha companhia maculada, da TV que não assisto
Do que poderia ser aquele que não sou.

Quero saber da minha alma que anda perdida em meio às saias
Saias que pertencem às namoradas que não tive
E não tive por que não quis, nosso tempo foi adiado (pra sempre)
Adiado pela comoção de uma poesia vadia, sem rumo

Vago em desvarios, como se não fosse pra ser
Mas é, e por ser já merece as reverências
Todas prestadas por quem não conhece o que conheço
Pelo que há de vário em ser
E pelo que há de absoluto em não ser.

Se queres a verdade...

É com a verdade que tu sonhas menina?
É da verdade que tu dizes tais palavras?
Estás certa que não é de um sonho?
Não seria onírico o teu precioso mundo,
De verdade ocultada por uma sombra de transcendência
Onde os homens se freqüentam por serem simplesmente o que são,
E por nenhuma outra verdade mundana,
Por nenhum outro comércio de idéias?


É menina, eu já a algum tempo já não me faço outra coisa a não ser suicidar-me
Pela dor que, de ser homem se transforma em mercadoria
Por acaso seria do mesmo pão de que se alimentam lebre e lobo?
Por acaso seria o mesmo o papel do rei e do bobo?


Mas, é com infelicidade que digo,
Que há de existir sempre bobos
Que as lebres valerão menos que lobos,
E que homem há de sempre ser uma mercadoria,
Uma mercadoria metafisicamente simples.

Fado

De meu fado farsante
tal qual minha natureza enfadonha
Sonho com minha alma transfigurada em corpo
De subjetividade afinada
em minha fome de objetividade
Causo sentir em caos de palavra arrebatada
De paixão em eclipse
com revigorada mortificação
Faço de mim o feixe de lenha,
ardente inação.

Do cais mortuário
ao porto secular
De minha morte acesa
à luz de um grandiloqüente penar
Faço de minha mortalha
a vívida miríade do pensar
Julgar de mim mesmo,
passado e futuro
ao presente que não é
Ao mundano que se oculte
sob os lívidos fulgores de estar.