segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cidades I

Essa compulsão, megalomania Pela totalidade. Eterna todo o dia. Já deu ferida funda às cidades Da agonia. Voam céus sobre cabeças Que traspassam avenidas Correntezas, dia-a-dia, multidões de formigas. Os céus notam? Claro que não! Não tem tempo pros disparates Dessa gente sem poesia.

Oração a Baco

Deus da ebriedade, Baco, adorado Toque sua música, sensual, cativante Enquanto caminhamos, passos largos, Ao abismo, encantado, da saciedade. Toque sua flauta demoníaca, Que seduz a mais formosa Das Helenas recatadas. Na noite que reina voluptuosa, Dê-nos seu vinho mais forte Pra produzir efeito amargo, Deixar-nos num estado De felicidade desdenhosa. Coloque à mesa um banquete! Qual festim do pecado primeiro, Engana-nos por inteiro e faz morrer a saudade, o desterro.
A poesia é um jeito estúpido De profetizar, versificando, Aquilo que nunca será. A poesia é um modo pardo, De enxergar o mundo em cores, E deixar de lado as amarguras. A poesia é um calmante, Para viver, cada ínfimo instante, Padecendo superlatividades. O poeta, idiota, com sua prosa rôta, Arrota em cada letra, uma lágrima, absorta. O poeta, dilatado, de seu modo torto e alçado, Racionaliza as derrotas em soluços malfadados. O poeta, desmembrado, sensual, imaculado, Faz da vida, qualquer coisa, uma canção agoniada. O leitor, falso esteta, é comedido por um espasmo. E na vontade de ser sábio, comete o crime do entusiasmo. O amor, belo diabo, com seu aspecto, abestalhado Comove o mundo, através das flores, ao do pé do túmulo Do poeta feio, dos versos faustos. Onde a lápide diz: Não foi ninguém o tal coitado! Mas, se caso a vida, que lhe faltou, Tivesse, em tudo, perdurado O homem triste, de versos fúnebres, Teria um dia, quem sabe, se tornado Um ninguém para eternidade. Um homem digno, de ser guardado.

Aedo

Somos poetas mortos. Sepultados num perfume de lótus, Derrotados pela morfina dos tempos. Sinais da derrocada, nossa sina. A lua nega sua face clara e fria, Abandona a poesia à sua sorte Não se importa com o imperfeito. Só quer alguém que aposte. O sol fechou seu branco pranto. Em nuvens esparsas, negro manto, Desdenha tudo, e, por agora, Se faz de cinza pra ficar mudo. Da terra? Nenhum fruto, Nem flor possui encanto. Seus odores, finados santos, Privados dos belos sonhos. A humanidade, diabo brando, Essa, sim! Vive sobre destroços. Das canções nunca entoadas, Pelos profetas dos escombros. Morre aqui um degenerado! Mais uma aedo em desgraça, Há de encontrar, um dia, ao lado, Um verso nulo, engatilhado.

Comunhão

Já temos os nossos destinos! Conseguimos os nossos deuses, Superamos heróis meninos, Em um milhão de vezes. Confessamos as mentiras, que disseram ser a vida. Pois dela, a qualidade, É não poder ser, jamais, Mentida. -//- Nos estábulos, Onde a razão defeca, Suas idéias, martírio não são, Sob as patas de um burro asceta. O que é razoável? É, então, comer a relva Pastar cada erva, cada grão E esperar pela morte certa. Hoje em cima, amanhã não. O chão é o que nos espera. Já não há mais comunhão; para além dos vermes, para além das merdas.

Dois

Duas constelações, Estrelas de pontas finíssimas, Que indicam uma morte, Onde tudo é próximo da vida. Duas armas quentes, Apontadas para um só peito, Lágrimas derramam-se dos olhos Aqui se atira por respeito. Dois tapas sem ruído Numa face que murmura Contra a mão calejada Ofensas e amarguras. Em dois bancos separados Mata-se em delírio. O nobre amor desatado, De quem nunca foi amigo. Dois assassinos, sem mais. Não é vão o sangue púrpura Que ainda jorra na calçada, Sob o sorriso de estrelas cruas.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Regressivamente

5 (cinco) comprimidos
Pra passar o medo
4 (quatro) maços de cigarro
pra matar a ansiedade
3 (três) doses de conhaque
Pra adoçar o desespero
2 (duas) carreiras de pó
Pra criar alguma coragem
1 (um) grande baseado
Pra ver que estamos de passagem.

1 (uma) vida estilhaçada
com as sobras de humanidade
2 (dois) anos miseráveis
adormecido sem estar deitado
3 (três) amores dispensados
pois não há qualquer vontade
4 (quatro) cortes bem profundos
pra sentir a nudez e crueldade
5 (cinco) lágrimas minguadas
antes do fim da realidade.

Anda, Vai!

Chupa!
Anda, chupa!
Porque a vida
É seiva bruta
E não permite
Renúncias.

Lambe,
com vontade
pois a vida
é só uma
e o prazer
é a verdade.

Vai,
bem animada
e faça da carne
maculada,
seu infame
desejo.

E depois,
do conclusivo beijo
queime, no desdém
dos olhos
que te possuem,
do homem que
vira as costas,
No primeiro ensejo.
A razão de toda a bebedeira
É a facilidade com que se vislumbra
Idéias assaz altaneiras
Com as quais se planeja
Toda a vida, numa sexta-feira.

A razão de todo porre
É poder morrer quando se escolhe.
E viver pequenas aventuras,
Quando o copo te engole.
Saber furtar-se de todo o juízo
Sabendo-se ninguém.

É anular o que o ego quer,
E dizer com as pulsões
O que se sabe errado.
É aliviar a carga, como(?)
Se o mundo estivesse encharcado.

A razão de qualquer bebedeira
é a paixão por qualquer perda
é função de qualquer merda
numa vida sem sombra e esteira.

Auto (Retrato)

Um homem de estatura mediana.
Nem gordo, nem magro
Pele morena, acinzentada,
Com olhos agudos, de bom traço.
Barba mal feita, desleixada.
De gestos bruscos, mas fino trato,
Pensamentos altos e baixos atos.
Foi feito mínimo por seus fortes laços.

Nasceu nas montanhas,
No mês de março.
E vive nas entranhas,
De um eterno cansaço.

Conhecedor das mulheres,
mas, somente por retratos
Se vicia mansamente,
Obedecendo a um compasso.

Onde a cachaça arde
E a fome cede espaço.
Em uma embriaguez diária,
Vão se apagando os fatos.

Sonhou a vida,
Em meio a um mar de abraços.
Mas acordado,
Percebe que acabaram suas chances.
Vai! Sozinho!
A dar seus passos...

O diabo e eu

Fiz uma casa no inferno
toda revestida de sonhos
com a puerilidade, juvenil,
descontínuas paredes nuas,
tristeza, um amor medonho.

Mas, não, não foi o Diabo,
quem fez ruir a casa do homem
foram, uma após outra pedra
atiradas nos peitos arfantes.
Outros homens mataram os sonhos.

Não foi o Diabo, o sádico
que fez sátira da minha pobreza,
que se riu de minha maior tristeza,
com sua sinistra arcada dentária.
Mostrando-se saciado com o fracasso.

Ele, demoníaco, pitoresco, belo!
Me ofereceu um chá bem singelo,
e disse que, agora, era digno
da sua companhia, e que,
mesmo tendo em mim, a maior
dentre todas as alegrias,
já não poderia voltar atrás.
Pois havia entendido que o mal,
tão adorado e tão temido,
não é o diabo quem faz.

Mas o homem que ao se ver
refletido no amigo, transforma-se
de imediato, em besta voraz.
E arrasa tudo que havia construído,
dando ao conhecimento, a fama por trás.

Deixei ele pra lá, e dei ouvidos,
mais uma vez, às tentativas
que o meu amor me traz,
pois, ele me entende, e sabe bem,
que a minha tolice extrema
é por querer ver no homem,
um ser que destrói, por amar demais.

Um dia, hei de tomar outro chá,
e entabular nova conversação,
quero explicar-lhe, que entendo
o sofrimento que lhe aflige
e que seu amor também não foi em vão.

O Anjo da Luz, do conhecimento,
da razão, gosta do homem,
como gosta um irmão.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tudo em nós é nojo,
não nos escondemos
em sonhos vãos
e sabemos exatamente
que nada temos
nas palmas das mãos.

Tudo em nossa vida
é despojo inútil
das certezas que
estilhaçamos no chão,
quando quebramos
o encanto fútil,
dos oníricos dizeres
de amor.

Não há o que se dizer
quando fechamos os olhos
e não há mais pensamentos
sãos e nem vontade de
seguir juntos.

Só resta a dor
e os rasgos fundos
que minha carne conserva
como prova indefectível do amor,
agora, mudo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Fênix Ressentida

Removendo a terra,
assentada sobre o meu caixão,
pude voltar a ver o mundo
que assassinou-me a paixão.

Que, como lâmina afiada,
incidiu profundamente em minh'alma.
Fez escorrer de meus olhos,
o sangue que me alimentava.
E apagou no espírito,
a chama que me amparava.

Definhei lentamente
enquanto perdia a visão.
E tudo na minha condição
era digno de repulsa.
Um homem sem perdão,
sem vontade, sem astúcia.
Escravo de condição
e mandarim por argúcia.

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Renasço hoje, nova vida,
uma nova roupa, nova figura.
Feita de pedra, estéril e fria
que vai vingar minhas amarguras.

Viver a vida conforme a teia
de ignóbeis teatralidades.
Viver a vida que aniquila,
em tudo e todos, a humanidade.

Queda

(Para Augusto dos Anjos)

Beijei o chão,
aos pés do morro.
virei de frente,
pedi socorro.
não veio ninguém,
pra ver a dor,
quando gritei.

Não foi por medo!
nem por preguiça.
não veio ninguém,
por egoísmo.
achar que a dor,
não fez sentido;
e que a minha queda,
foi construída,
ornamentada
na despedida,
de um melodrama
e não da vida.

Morri ali,
em meio ao lixo.
Prestando honras,
as tuas quimeras.
Que não se apiedam
do que está apartado,
mas ignoram
o que os espera.
(A solidão, esta pantera...)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Manhã de Segunda

Para Elsa Plascak.

Cai a noite de domingo e adormeço, com um sabor amargo da próxima manhã. Implacável, irresoluta nas suas imposições, que se colocam, estrondosamente, frente à débil luta que empreendo pra não deixar-me levantar. Para conseguir permanecer deitado e fluído, sentindo apenas a proximidade do teu corpo amado; da tua alma, que, nua, transparece, em sua brancura letárgica, ao meu lado.

Quando, ao despertar infernal dos relógios, que serão culpados por toda uma manhã, custosa e mal-humorada - positivamente improdutiva, e completa no desamor por todas as criaturas (não todas, quase todas!) - a primeira coisa que vejo, quando giro o corpo num gesto irrequieto, pelo transtorno do despertório recém adiado para dez minutos mais tarde, é o teu corpo com uma respiração vacilante que indica a certeza de um sonho, e o teu rosto levemente descontraído por um sorriso inconsciente, o mais doce de todos os sorrisos possíveis em mundos impossíveis. Então, tenho a certeza mortificante de estar fazendo a coisa errada. Ao contrário do que pensa a turba, a única coisa a se fazer nesse momento seria deitar fora os relógios e jogar-me novamente ao teu lado, para então fechar novamente os olhos lassos e partilhar dos teus descaminhos oníricos. Enquanto os corpos semi-nus voltam a se encontrar, forçando estradas, nos lençóis.

Porém, há a dolorosa obrigação de erguer-me. Ela me detém. Mortificando duas gerações de bons pensamentos e me levando ao mau-estar do dia-a-dia em sociedade.

Faço o café com pressa, só pensando em tomá-lo rápido, pra ter dois minutos mais a te admirar. E e quando pronto, acendo um cigarro, onde a fumaça me lembra, tranquilamente, as curvas do teu corpo. Enquanto as imagens vão me dizendo o quanto é desperdício sair de casa, de forma tão prematura, sem ao menos poder ver o teu despertar e voltar a ver o teu sono e admirar-te por mais cem mil manhãs, tardes e noites. Até o ocaso dos nossos dias. Volto então, para me despedir. Com lágrimas incontidas saio de casa. E recomeço mais uma semana da minha vida!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A besta

A besta,
docemente,
se aproxima
do alimento.
E vislumbra,
sorridente,
o que há
de por pra dentro.

Mas,
num frêmito de loucura
a vítima lhe pede,
que poupe sua carne,
que a besta se apiede.

A besta
por instantes
pondera tal pedido,
e vê que sua fome
faz muito mais sentido.

E garante à comida
que não haverá dor,
pois tudo que devora
ela devora com amor.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cigarros

Acabaram-se os meus cigarros.

Entristeço-me, ao jogar fora, anos de investimento.
Como é que pode se acabar o meu último maço?
Todos os outros que traguei,
em razão deste último,

Vazio.

Com todas as marcas de batom que ficaram estampadas
nos filtros, por onde não passavam nada além de sonhos,
Na fumaça que formava imagens
de um sublime e radiante futuro,

apagado.

Meu cinzeiro improvisado numa caixa de aparelho dentário,
minha mania de bater o cigarro pra prensar o fumo,
minha vontade de um café bem forte
minha ânsia por encontrar,

um prazer.

Fumei os meus cigarros em devaneio,
andei a perder-me entre as brasas
e bailei entre as névoas do meu cachimbo
mas não fiquei satisfeito

ainda tem combustível
no meu isqueiro.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

(Soneto) do Passado

O tempo do que já se foi,
nos lembra do que não será.
Amigos compartilhando dor,
na vivência do desamar.

Reencontrar-se numa paixão,
no telhado a iluminar,
os tetos mofados da razão,
do ser-aí pra não restar

Nada. No pendor o coração,
volitivamente, a se quebrar
nas veredas pedregosas,

em perseguição aos amores.
No pretérito imperfeito,
um futuro que não há.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Guaicurus

Uma ratazana
devora os sonhos
avançando
sobre os corpos
deitados nas camas
da vileza,
como natimortos.

Mulheres sem nome
se deitam nas
ratoeiras
onde o desdouro
as consome.

Delirando
um futuro
que já foi traçado,
que, como todos os pecados,
repete-se num passado.

A sujeira, tão amada
há de assentar-se
sob nossos tetos
insalubres,
onde vendemos
nossas filhas,
onde crescemos
em família.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Valium

I

Senhor, faça me a gentileza:
Me dê na veia,
onde há sangue,
nesse corpo ávido,
um lenitivo
para a tormenta,
que se aprofunda
no espírito.

E caso não seja possível,
pode ser Valium,
pra matar de vez a sede,
me tornar estéril
e cavar em mim,
a sepultura,
pra enterrar o que sou.

II

Fui um indivíduo inventivo,
quis ser homem de convicções,
mas, foi mesmo no abismo,
que dei os passos altivos.

Compartilhei os nossos vícios
execrei as virtudes mais sublimes
não pensei nas atitudes
por trás de todos os meus crimes.

A poesia me impediu
de ter escrúpulos na vida.
pois tudo doía de forma vil,
quis matar minha essência.

Hoje, o valium, me resignou
sou um homem gentil
apascentei as minhas sendas
já não há porque seguí-las.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estou farto! eu me calo.
pois sempre, quando falo,
tudo me parece enfado.
Agastado, Importunado,
Aborrecido, Irritado.
Sinonímias da condição,
constintuinte, de quem morre
morosamente, sem lenitivos.

Tomando o soma das aparências,
sofrendo todas as violências.
Com rebeldia, impraticada,
rastejamos pelas calçadas.

Dessa Sodoma, reinventada,
Dessa Gomorra, tecnológica.
Só sobrarão os covardes,
que, como eu, já não estão.

As memórias da desordem
as vivências da revolta
os desejos dos famintos
vão ser o obituário,
desse mundo, que se chama:
Prisão.
Construímos o presente
na opressão,
no descaso,
no frenesi.

Escrevemos nosso nome
com o sangue
que se coagula
na ferida,
que não cura.

Mas, daqui pra frente

Comeremos o ventre,
das madonas,
como abutres
religiosos.

Ganiremos ao luar
como lobos,
insaciáveis,
desvairados.

E então:

Destronaremos
as tradições
as maldições
que nos tornam
incapazes de ver
que só tem sentido
viver a luta
que vai de frente,
de braços dados,
pelas ruas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fuga

Só fugi duas vezes na minha vida
Uma quando nasci
E outra quando vivi
E tive que viver
Mesmo assim
Baloiçando
De um extremo ao outro
Com medo da queda
E da subida
Não entrando
Pra não ver saída
Desconhecendo
A despedida
Das relações
Não cometidas.
Cheguei longe
Pra não estar perto
Mas, de surpresa
Fui descoberto
Mais uma farsa
De peito aberto.

Um homem de gravata contra os homens de amor.

Quando vi,
nos dois primeiros minutos
de um dia acinzentado,
um homem de gravata
me dizendo:
- Privatize-se!
- Desocupe os teus sentimentos!
Foi com um nó na garganta que pensei:
- Que tipo de sugestão é essa?
- Não há, como se fazer tal coisa, há?!
-Jamais poderia,
jamais poderíamos!
não se perde a única coisa
que se tem.
Mesmo que massacrada
só há vida humana,
onde há subjetividade,
só há vida humana
onde há amor.
E não existe outra forma,
o amor é objetivo.
Se propaga, consequente,
e quer colocar flores nas gravatas,
e salvar da barbárie,
a flor dos homens.
Nem que seja com sangue,
nem que seja de lágrima,
há de se promover o resgate,
da humanidade.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Digestão

Arrancou-me as vísceras
e deixou-as totalmente expostas
deixou escorrer o meu sangue
nas ladeiras tortuosas
misturando-se à cerveja
nas libidinosas noites.

Tombado feito espantalho
cabeça ao peito
braços em haste
fui crucificado.

Da ultima chaga
só lágrimas,
lágrimas doces,
por ter amado,
néscio.

Comi as pedras
digeri o desengano
suguei o veneno
dos veios, das covas.

chamei de meus
todos os planos,
de ser nobre
de ser vil
de suceder
de fracassar
de amar
de perdoar.

E aprendi:o contrário do amor é o perdão!
e todos os homens, sem seus contrários,
não são mais que vacuidades.
tudo que se é, constitui-se na alteridade
e pra alteridade o necessário
é enxergar teu rosto, no espelho do passado.

Criação

Quando me perguntam:
Crês na criação?
Respondo logo que sim.
E como poderia crer que não?

Com tantas indústrias,
fumaça que entope os pulmões,
jagunços corporativos
chicotes modernizados.
Maçãs pecaminosas,
cruzes virtuais.

O homem cria a fundo!
é espetacular o que fez
do mundo, sua imagem
e dessemelhança.
Trabalho mais criativo?
Impossível!

Pois é fácil, ver Deus,
todo dia às sete
tomando aquele café
corrido, torcendo,
pelo atraso do bonde
e pela chegada da regra.

Porque filho é só
parecença, e ninguém quer
igualdade.

Quer mesmo ser
criador da criatividade.
Toda a obra,
é apenas,
metade.

Mas o capital,
é quem sabe se pôr
e cria duas vezes
dez mil Deuses,
e não tem tempo
pro sol se opôr,
a não ser que seja:
no fundo da tela
de um computador.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Revisar cada fato
compreender o irrepreensível
num homem qualquer
a falta de tato
diante de um mundo
incognoscível.

tomar emprestados sentimentos
somente os mais fortes,
em ode ao ódio, terror,
repúdio à sorte
somados ao amor e coragem da vida.

e viver num compasso
de chegadas e partidas
humanizando-se em cada passo

e ver de perto que é na hora da saída
que todas as portas se abrem com agrado
sabendo-se tecido em linhas tortas.
e escrevendo-se
mesmo desconhecido do que é.
As dores excruciantes
de perto são gigantes
e de longe não se vê

os homens desimportantes]
ratos de todos os instantes
fazem a humanidade se mover

beijos agonizantes
sob as dores dos amantes
são, a fundo, sem porquê

ao fim desses caminhos
todos os tragos sorvidos
ficam amargos de beber.
Desejei uma miríade de mulheres
pra juntarem-se ao meu corpo
tomei todas as drogas
pra elevar meu espírito
escrevi com todas as letras:
'não compactuo com isso!'
E não restaram,
nem um, nem outro
me tornei um porco de espírito.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Vai pesar o dia em que me abater, doentio,
Mas tendo você ao meu lado, não se abrirá a ferida,
Não será nada além do frio.
Velhor e cansado, não vai adiantar o ser ou estar,
Só restará o ter sido – tecido retorcido –
Mas não desaprenderei a amar, e vou
Reconhecer o teu cheiro, embebido,
Nas colônias de um amor senil,
Embevecido nesse cheiro, permanecerei.

Vou adorar o momento em que, no ocaso da vida,
Quando sentares ao meu lado e disseres, ao moribundo:
Vistes valeu a pena cada segundo,
Tua morte se justifica e ainda há amor no mundo
Com o peso das tuas chagas, com o sangue das feridas.
Não lamentarei, não me ocuparei de refletir, mas
Saberei no exato instante, que realmente,
Fui feliz...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Pra ela

Todas as noites encontro uma mulher
Os cabelos em caracóis e cachos
Nem sempre bem ordenados
Como a me dizer: toque me!
Fui feito pra ser amado!
Por vezes, me aproximo,
Por outras, me afasto,
O fato é que tal mulher,
Deixou meu peito em descompasso.
Arrancou todos os tijolos do meu muro
E deixou profundas as unhas na minha carne.
E para além do destempero,
Só há um objetivo em mim inteiro,
Até a morte poder vê-la
Seja em sonho, seja ao vivo
Seja torto ou seja firme
Que ela me ame ou não.
Gostaria ao menos de que,
uma vez por dia,
pudesse sentir seu cheiro
ou segurar sua mão.
Não é a libido ou lassidão,
É a verdade de alguém,
Que só quis fazer uma vez,
Ato nobre que é doar seu coração.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Cativeiro

Por achar em todas as coisas mínimas o passo da maior grandeza eu me ferrei...
Querendo ver qualquer merda de qualquer humanidadezinha cultivada num apartamento.
Cercado por coisas que não são minhas mas, coisas que me detêm. Nada além de um prisioneiro.
Se possível encher a cara de ódio e vodca, para passar pelos outros idiotas sem ser notado.
Fedendo a sexo antigo, fedendo a suor de uma maratona que não percorri.
Uma batalha de outrora me faz ainda pensar que estou vivo.
É só nostalgia daquilo que não vivi.
É saudade das coisas que não virei a conhecer, mas que, caso tenha a oportunidade, explodirei sem pestanejar.
Queria voltar a rever aquelas montanhas, a única coisa real da minha vida. Aquela muralha que me aprisionava, também me tornava mais casto, mais puro, menos falso comigo. Porém hoje, quando vou até elas, elas se recusam em vir até mim. Não é uma questão de escolha. É uma questão de irreversibilidade.
Os olhos mudam com o tempo, o corpo muda com o tempo, o tempo muda com o tempo.
O tempo é o grande inquisidor das nossas vidas, e qualquer sentido que não se submeta as suas questões perece inevitavelmente. Burlar-lo é impossível, aceitá-lo ainda menos.
Como se por uma conspiração interna, vi que estou fechado, trancafiado no mundo e não consigo retomar a liberdade que está dentro do eu... eu já não existe... eu já era!
Então o que resta?
Acho que encontrar aquele resto de dignidade que guardei no fundo da gaveta do lado daquele revólver. E então carregá-lo com dignidade e disparar!
Contra mim? Contra alguém? Contra todos?
Não importa! Nunca será contra mim, nunca contra todos. Porém, toda vez que disparar contra mim atingirei alguém que cativei. O que, na verdade, não faz a menor diferença.
Já é tempo de libertar os cativos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quem somos?

Preocupado em fazer as coisas;
Esquecido de ser os homens;
Confinado nas paredes cinza;
Acabado pra entender que somos,
Fulgazes vítimas das fomes;
Violentados pelas autoridades;
De quem não tem sonhos,
Pra outorgar vontades;
Viver por caminhos insanos.
Como fazem as pérolas,
Ao devorarem os porcos.
Pois tudo que é valor,
Se dá na aparência criada
Pelo ato de subjetivar.
Quem somos?

Do porque de mover-se...

Do porque de não conseguir mover um dedo
Surge a pergunta, que é na verdade anterior:
Qual dedo deve ser movido?
Da vontade de escapar do corpo dolorido
Vibra a alma toda num temor
Com qual arma morre o corpo já falecido?

Com o tempo que passa numa intensa lentidão
Quebra-se o pensamento que não argumenta
Mas torna-se apenas um zumbido
Que faz doer as vontades não saciadas,
os ventos não sentidos, os frios não aquecidos.

Queima forte a gélida amizade
Constituída com o não, com o niilismo
Que vai fazendo a vida, cadinho por cadinho,
Entornar um ácido no céu da boca.
Para que, a língua ardente,
não faça mais nenhum sentido.

Se, porém, quer mover-se,
Não se mova pensando.
O mundo foi feito pra estar
E nunca pra ser estando.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Todas as noites, no auge da descrença,
peço a Deus que me retire do mundo.
Que evite a chegada do momento
Em que o insuportável se torne o mote
Da vida que ainda agora me interessa.
Peço que, com sua clemência,
me retire de vez o ar.
Me retire a visão, olfato, tato e paladar.
Pra que não possa ver o escravo a trabalhar,
Por que não quero cheirar o sangue no altar,
Pra que não possa eu, também, me mutilar
E pra que não saboreie o suor
daqueles que não poderão provar
do alimento que foram obrigados a cultivar.
Mas, principalmente, peço que me retire a audição.
não quero mais ser acossado pelas frases,
pela falta de sentido que apregoa todo homem do mundo
quando quer mostrar verdade naquilo que não passa de discurso.

Por favor, Deus, mate-me já ou faça jus ao que criastes neste mundo!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Past tense

Se ainda naquele momento houvesse coragem
Pronunciaria teu nome uma derradeira vez
Deixaria de lado as incertezas da viagem
E pensaria concretamente na nossa inequívoca nudez.

Mas não teci as verdades sob o firmamento
Que de passagem parou para ver que acertava
Quando da aposta na minha incapacidade
Mais que declarada na minha mudez.

Não quis ver pela noite, rua, cidade,
As nossas mãos perguntarem porquês.
Já tinha certeza que, daquela feita,
Estava concluído o trabalho.
E que não seria
um chão, um teto, paredes, retalhos...
que promoveriam aquilo que o amor não fez.

E com o céu, que agora já não pára,
Você seguiu, sem olhar pra trás.

Eu ainda estou naquele tempo que não passa
Olhando em volta, em busca de voz.
Porém, já não há casa para alguém que se separa
cuja alma fica no passado - uma navalha.

Se mesmo o sangue que agora corre quente
Não se arrepende dessa senda já tomada
é porque o corpo já não estava mais presente,
e nosso enterro independe da mortalha.
Já vão queimando esses pensamentos tortuosos
Já não existimos nesse campo de batalha.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mas, antes de qualquer coisa, eu preciso aprender a fala.

Aprender a dizer as coisas, retas, sem dar asas ao drama,
desfazendo tantas tramas na descomoção dos lábios tensos.
Tenho que desimaginar a contínua transa entre o espírito e matéria, deixar de ver nas pedras substâncias nada etéreas;

pôr de lado tanto sonho e perceber que é no mundo que mais medo escondo.

Tenho que olhar menos nos olhos - pessoas jamais entendem gestos - querem na doçura da boca ver ruir todos os sonhos.
E ver que se faz de palavras o seu mundo concreto.

Pois é prejuízo meu: saber que sou feito de carne e não de verbo
e ainda mais saber que é inválida a minha postura.
que preciso apalavrar-me, descarnalizar-me.
É prejuízo meu!

E é também só lembrar-me defronte ao médico que corpo e coração e fígado e cérebro são vocábulos,
e que ossos,
são os que sustentam.

Não obstante, para a minha última esperança, ainda não me conveceram de que alma é palavra.
É assim que dissolvo-a (matéria); desse modo que ainda penso fazer dela minha escrava.
28/07/2010
Cantei canções de esquecimento,
quis ver minha memória desaparecer,
e sentir morrer com o tempo
o trauma que da vida é crescer.

Mas, mesmo indo a deusa
Parar bem longe de mim, com o vento,
é difícil retirar o que da vida mesma
Já marcou e está cá dentro.

E não há mais profundo turbilhão,
mais intensos e determinantes sofrimentos
Do que aqueles que mesmo sem explicação,

São feitos na carne e não na história,
Não dependem da razão ou de Mnemosine,
deusa que de uma só vez, nos conserva e nos oprime.

27/07/2010
Frente-a-frente; face-a-face; dia-a-dia; passe e impasse.
Dei voltas na cintura do mundo,
Vi gente viva e também moribundos,
Galopei cavalos e tanques,
Subi em nossos altares e nos palanques.
Cri em nossas medidas e em nossas chances?
Ganhamos mais nas derrotas que nas revanches?

Como saber afinal se é o alvo ou a fecha?
Se o arco ou arqueiro?
As formigas ou o formigueiro?
Minha mãe ou o mundo inteiro?

É de vontade de saber que me afasto, bem matreiro...
E me reservo de perguntar sobre o que é pequeno e corriqueiro; e me perco a devanear o universo num cinzeiro.

Conjecturo constelações, outras terras, mundos, reinos, deuses. E acabo por esquecer-me do porque abstraio: é para não ver repetida no mundo, a minha imagem em tantas vezes...

27/07/2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Dei ao teu corpo uma nova qualidade,
Fiz dele uma memória alva
e como se me escapassem as coisas
vivo nele como numa cidade.

Percorro em teu seio, um palavrório,
que de uma saliva imaginada
tornas a minha língua, quente e faminta,
nas tuas costelas, gesto mais simbólico.

De tua meninice percebi uma sina:
Não há nada em teu ventre que me permita enganar-me
Não há nada em teu sexo que impeça que eu minta.

Nunca em teus cabelos negros
haverá tanta profundidade
nem mesmo diante da desfaçatez
de um poeta que te cativa,
apenas porque dele, já se esvai a mocidade.
Dormi e acordei
assustei-me mas não cedi
ao sonho que me aconteceu
quando pensei e não dormi.

Comi mas não sentei
à mesa em que já senti
que fiz parte de alguém
algum lugar ou aqui.

Sofri mas não amei
porque já não quis sair
da treva em que depositei
o meu novo jeito de sorrir.

E como agora já não sei,
o que há de ser pra mim...
José! me ajude a dizer:
"Só sei que não vou por aí!"

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Eu vi todos os medos
Longe, vindo a passos lentos
Sabendo que encontrariam em meu peito
A exatidão dos seus segredos

Bem de perto, o desespero,
Inequívoco pavor, um sem jeito.
Esquecer-me, já não posso... Caminharei
Rarefeito. Sob solas silenciosas
Lanças mil, tantos feitos
Indesfrutados por aquele, cujo sangue
Nauseabundo, desgraçado.
Ganhou o mundo, no meu leito.

Pesaroso, continuo, a viver desse modo.
Lânguidez irresolúvel, voluptuosamente morto.
Ancorado em tanto cais com os meus barcos falsos,
Sábio de sarjeta, aristocrata de nada.
Comendo nos meus vícios a vida debelada
Animal insáciavel, de uma sorte já traçada.
King without a kingdom, priest without faith.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Dentro desta lâmpada votiva habita tua vida
Alma que nos trouxe aos pés de uma realidade
Já trespassada de humilhações indignadas
Obliterada pelas conversas que propõem novas verdades.

Começaremos daqui a pouco a saber amar
Daqui a um tempo faremos um muro, por nós...
E em um instante estaremos mais que sós,
Vai ser o fim da luz da tua lâmpada.

E eu, cidadão, que não habita lugar algum
Vou voltar a buscar a sede que hoje teu vinho sacia
Talvez num porre de conhaque...

Ou talvez, bebendo de volta
o meu próprio sangue que
misturado estará à água fria...

domingo, 9 de maio de 2010

Comiseração

Tento hoje ver o que é a minha vida,
Porém, não sei de onde devo olhar por ela.
Todo o olhar, todo lugar, toda ferida,
Está exposta na alma como numa tela.
As verdades que sempre cultivei,
São como as farças que em meu peito colocou
O mundo, desse medo de viver e ser;
O solo em que ainda piso com temor.
Quero felicidade, amizade, amor.
Mas só percebo inveja, falsidade, pavor,
Hipocrisia em pequenas lições - para crianças -
Condescendência, desânimo, desesperança...
Queria mesmo olhar nos olhos,
Fazer a sonhada dança,
Poder ser pequeno,
Poder ser sincero,
Poder voltar à franqueza da infância

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Frases

Só dói tão agudamente porque é amor, se fosse simples dor o próprio corpo cessaria!

Só há contrato onde não pode haver contato. A lei vigia onde não quer ver poesia.

Liberdade essa palavra que à mente humana angustia, que não há ninguém que explique, porque é mera fantasia!

Volta a Ouro Preto

Voltei hoje à minha cidade
Percebi hoje a distância
Que mutila a mocidade
E me faz negar que tive infância

Hoje vejo a procissão
Que volteia os becos e vielas
Passando em baixo das janelas
Onde as cruzes são os próprios ombros

Com os olhos esgotados
Vejo agora essa gente
Que eu já quis olhar de frente
Mas que agora são finados

Eu mesmo, com essa dor no peito
Provinciano, como me foi imposto
Devo hoje abandonar meu posto
E sepultar-me em Ouro Preto

No meio

“No meio, estão os homens que lambem as mãos dos que dão socos, e sugam o sangue dos que levam socos, eis aí o meio!”
Maksim Gorki - Mãe


Porque no meio sobrevive a contração.
Nesse berço onde cresce no futuro,
A segurança de ser medíocre.
Onde humanidade se torna contradição

Porque no meio situa-se a ordem.
Está o orgulho adquirido na miséria,
De não olhar a ferida que sangra,
E de esquecer da mão que flagela.

E é no meio que esquecemos de que ser homens,
Vai além de cultivar a vaga idéia,
De propagar o mundo das coisas pela terra,
E ensinar aos miseráveis, mortos de fome,

A lamber as botas de quem o atropela,
A invejar os males que consomem,
Os espíritos que fogem a perceber
Que sua alma desapareceu pela janela

sábado, 24 de abril de 2010

Voluptuosos são da terra os teus frutos
Nos quais nascem as vontades,
A avidez, a necessidade, a coragem,
De sugar-lhe os maduros seios,
Apanhar as flores que me dão tua imagem
Caçar-lhe pelos densos bosques
Alimentar-me da tua carne maculada,
num banquete de insaciável voracidade

Experimentar um prazer mais ardido
Como se houvesse nisso a verdade
que busca o homem já perdido,
nos vales e colinas da cidade.
Que de cimento e sangue construídos
Escondem em si a realidade
Do corpo silente, enrubescido
Nesse momento único de felicidade.
Versos verterão lágrimas
Enquanto vidas se desencontrarem
Na solidão das turvas águas
Nos dissabores das corredeiras de ontem.

Sedento e faminto em terras áridas
Segue o poeta cuja pena morreu
No berço em que nascido, desenganou
Às crianças de vontades pálidas.

E no amor, seio da face ávida
Há mais fastio, lívida peste
Essa que já não é a nordeste,
E vem com vida, mostrar-se praga

E não há seca tão solene
Quanto a daquela sorridente lança
Que corajosa, corta o peito,
cava a chaga, desmembra e mente.
Frente ao próprio espelho
Onde todo ódio é semente.

sábado, 10 de abril de 2010

Ponto e Vírgula

As vírgulas me seduzem;
os pontos são tristonhos.
As vírgulas me conduzem;
não há pontos onde há sonhos.
Temos vírgulas onde há luzes;
mas é negro todo ponto.
Pois as vírgulas são homens;
e no ponto já não somos.
Para além do ocaso
que é forte nos lábios
eu temo seus olhos
acesos e fartos.
Onde frente à face
que traz a morte
transformo em desejo
um tempo em sorte.
Em que possa tomar-lhe
os braços suaves
sem que minhas mãos
possam mutilar-lhes.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Venhamos meus senhores
Empreguemos nosso nome em vão
Saibamos contar quantas luas são
Para calar nossos dissabores.

Cortemos em nossas camas
As noites frias, com o peso são
do não sonhar e não convalescer
com os antigos ardores

E a cada piscadela que se dará, então
Saberemos que agora, feitos de areia
os nossos olhos já se esqueceram
de lacrimejar ao olhar as flores

Pois já não há epicúreo jardim pra poder cultivar
nas remessas lascivas dos prazeres de hoje.
já podemos - é o que digo - agora nos deitar
sob o céu cinza onde um dia houveram cores.

05/04/10
Castor Azevedo

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Alento

Vem com a noite e o tormento
A visão de que sou o rebento
Desse mundo, do padecimento.
E cá, nesta parte onde sento
Visita-me constante o vento
Sopra forte, sussurrante, na orelha
E eu me atento:
“Já não há alento!”
Não há passo, nem compasso
Respiração e nem mesmo
um braço a abafar
Só há tempo.

Tempo,
Vento,
pensamento,
Que nasceu e padeceu
Em sofrimento
Povoado de amor e tormento
Mas já vai encontrar,
Desperto e atento,
O seu tão alvejado acalento
Logo junto ao testamento
Sob a pedra fria deste túmulo
Em que hoje em dia, me acustumo
E me sento.

Confissão e Devaneio

Toda vez que tomo banho sinto os meus pensamentos correrem lisos - como as gotas que caem do chuveiro – é uma coisa que me ocorre facilmente, sem o menor esforço as idéias aparecem e somem, sem deixar rastros. Algumas delas, muito provavelmente, nunca voltarão a me ocorrer, mas, tanto faz, já faz muito tempo desde que me apeguei com força à ultima idéia que tive em que senti alguma legitimidade, as que me chegam agora são pálidas, débeis, não se sustentam sozinhas e nem ao menos conseguem se pôr em pé. Todas, sem exceção são – e estou convencido disso – prestidigitações, não há nelas o menor teor de realidade e consigo uni-las nos pares de opostos mais absurdos, as minhas margens não tem sido a direita e a esquerda, mas a de cima – apolínea - e a de baixo – dionisíaca se quiserem, mas prefiro chamá-la: visceral – assim ela vai realmente de encontro com as coisas que sinto, ou sinto pensar.
Sinto pensar – bela expressão – a fundo – e afundo – essas duas coisas nunca estiveram totalmente separadas para mim, desde muito pequeno tenho sentido as idéias com mais força do que as próprias impressões, todas elas são a minha comoção contínua com o mundo, mundo esse que no meu tempo se faz a cada dia mais imediato, corporal, ao passo que o identifico com a insensatez do dicionário. Mundo insensato, sim. Lembro-me de quando criança do nojo que sentia das manifestações afetivas mais profundas – me causavam um pavor, um medo intenso – eram muito reais, muito táteis para poderem perseverar. O todo das relações era ao mesmo tempo sobrepujado por interesses, interesses que naqueles anos ainda não conseguia ver com clareza quais eram, mas hoje – com a alma embotada, o corpo infantil já enfermo pelo excesso de anos que me ultrapassaram e imbuído na mesma trama que me era estranha e ofensiva – consigo ver sem o menor dos problemas, ficou fácil distinguir e difícil viver.
Difícil viver, na medida em que, naqueles anos era só pensar nas coisas que elas se faziam presentes enchiam o espírito com uma massa densa, idéias dotadas de uma viscosidade, faziam sorrir a qualquer evento que se desse no mundo exterior a elas, pois depois de entornada a sua seiva em meu espírito, era muito tranqüilo ocupar também o mundo com elas. E cada planta, cada flor, cada homem isolado, continham em si toda a beleza e facilidade com que o mundo havia dotado as coisas. Pois uma montanha era só uma montanha, mas era também todos os tipos e variações de montanhas, não precisava ir a Irlanda pra saber como viviam os irlandeses, era fácil mesmo, os irlandeses viviam como os escoceses e estes, por sua vez, bebiam whisky como bebem cachaça os passagenses.
Não haviam segredos, pois grande parte de tudo que me formou o que sou – um traste – ainda me eram desconhecidos, e pras crianças não existem segredos, só há mistérios. Pois mistérios não são coisas que não podem ser reveladas, mas coisas investigáveis, e podia eu, até então, investigar. Hoje sou o que sou: traste, biltre, infame e romântico, por causa desses segredos que só adquirimos quando vamos ficando mais velhos, quando – pra ser heideggeriano, mas não o sendo, em absoluto! – o mundo se desvela aos nossos olhos e a terra se oculta, na mesma medida. Agora em idade adulta, tenho milhões de miríades de segredos, e guardo muitos que são alheios, me espremem o peito da forma mais agônica imaginável, tudo bem – temos que viver, não é mesmo? Não é importante inocular no nosso próprio pensamento a nossa dose diária de hipocrisia, o veneno da dissimulação? Ora bolas, como é possível viver sem essa coisa?
E por esse caminho fiz chegar ao ponto onde estou: saído de um banho onde tive uma revelação, nu em frente a um maço de cigarros vazios – e sem onde ter pra comprar pois já são quase duas – e matutando uma só coisa: sou de fato um romântico, dos piores que existem daqueles que são os mais nocivos, os mais ignóbeis, um verme cujo amor que não cabe dentro de uma só casa e é a arma mais “destrutiva” já inventada, sou assim como quem quer levantar, fazer levantar vôo a cada espírito cujas asas estão amarradas, mas também egoísta por não querer alçar vôo por mim mesmo, esse querer por todos – hoje eu sei – está diretamente ligado ao meu nojo infantil, é o interesse em ser homem, humano, de uma vez por todas, sem cair nos joguetes da vida prosaica e inútil, onde toda casa é própria e mesmo Deus já não deixa qualquer um entrar.
E o que tem isso a ver? Não sei, meu pensamento tinha voado para uma ilha, onde faz frio e onde é difícil imaginar a doçura pela qual o meu peito anseia. Mas, enquanto isso, vou continuar me encontrando com as bordas dos meus copos, com os filtros dos meus cigarros, com o ópio do meu espírito...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Irracional

Surge, com o desaparecimento do magnífico sol de verão
A incontrolável vontade de fugir, sumir, desaparecer
Vontade de ver a existência pelo oculto olhar do não ser
Vontade de juntar o corpo em frangalhos e colocar-se no chão

E de dentro dele, observar o mundo a construir-se em vão
Sabendo inútil toda a variedade de idéias e pensamentos
Que em verdade nada são para o mundo, fuligem querendo ser cimento
Pois com o homem, animal, tudo é via de trazer ao corpo satisfação

E não me venham falar em filosofia,
Nela tampouco há razão
Razão que só se vê no corpo que morre
Verdade única, essencial
Que escapou às mãos do homem
E de toda e qualquer prestidigitação

Por isso, te digo, meu pequeno peito
Não se infle com esse amor que te ofertam
Pois o poeta já dizia:
“o beijo é a véspera do escarro”.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Amor Outonal

Ainda hoje sinto
Diante de tua imagem
Um frisson
Que me impele
Aos passos infantis
Da criança que se descobre
Homem, amante e pobre.

Coitado daquele que
Em seus dias mais tenros
Não procurou os braços
De uma pequena dama.
Nos dias em que
As brincadeiras perdem a cor
E sente-se, pela primeira vez
Que já se ama.

Pois não importa o quão parca
E torpe seja hoje a vida.
Aqueles dias
Que há tempos já se foram
A memória há de sempre
Perpetuar.

Naquelas tardes outonais,
Excedido o verão da infância,
Na busca incessante
Pela crueza mundana,
Através do arrepio intimador
Que só se faz possível no amor.

É pena que a leveza ingênua
Que em tal época se faz plena
Se perca na dança trêmula
Da vida a se devassar.
O cotidiano acaba então
Por ultrapassar
Com sua lentidão rotineira
Àqueles momentos,
Sublimes toques, pequenos,
De gentilezas no olhar,
De sentimentos ternos,
Que podemos não mais ter,
Porém, impossíveis
De apagar.

E se é em sonho,
Que seja,
Mas a primeira
Que atraiu
O olhar
Sempre será
De onde
Trarei as forças
Para poder
Continuar
E quem sabe,
Um dia,
Sorrir novamente
E me enamorar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fevereiro (palavras e devaneios)

Fevereiro
forte
fogueira
onde ferve
o carnaval.
Desperdiçando,
despedaçando,
sonhos
verdadeiros.
Fomentados
ano inteiro,
pra morrer
maduros,
embriagados,
em farrapos,
desordeiros.
E da vida
que se segue,
em cuja pureza
ancestral,
descansa
o canto
costumeiro,
da dama
virginal
mitigada
pela fome,
pelo animal,
que entorpece
a nobreza
de teus
antigos
beijos
primeiros.
Inebriada,
vai em frente
sofrer decerto
humanamente
o amor que escapa
por entre os dentes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Passagem das Horas (Ode Sensacionista) - Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados...
Mary, eu sou infeliz...
Freddie, eu sou infeliz...
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
Com as cabeças femininas coiffées de lin
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
E a fita entalada com o fechar da gaveta,
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
Definitivamente para todo o resto do Universo,
E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida —
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
Coada através das árvores do jardim público,
Eu, o que os espera a todos em casa,
Eu, o que eles encontram na rua,
Eu, o que eles não sabem de si próprios,
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
A cicatriz do sargento mal encarado,
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
O sacana do José que prometeu vir e não veio
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...

Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
O baú das iniciais gastas,
A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
A Brígida prima da minha tia,
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!
Caem as folhas secas no chão irregularmente,
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida...

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavisnio,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
Não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido
Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
He-la-ho-ho ... Helahoho ...

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
Ho ----

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
Ave, salve, viva a grande máquina universo!
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
Infinito...
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
Rola ...

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...

Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
Clarim claro da manhã ao fundo
Do semicírculo frio do horizonte,
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
Tosse seca, nova do que sai de casa,
Leve arrepio matutino na alegria de viver,
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
Inevitavelmente vital,
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...

Toda a madrugada é uma colina que oscila,
...................................................................
... e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
Do rodopio parado da minha retentiva seca,
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
Passeio lojistas "perdão" rua
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
Por todos os precipícios abaixo
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objetos projéteis!
À moi, todos os objetos direções!
À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
Velocidade entra por todas as idéias dentro,
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!
...............................................................
...............................................................
...............................................................
...............................................................

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

Álvaro de Campos, 22-5-1916

Não, Não é cansaço...

Álvaro de Campos


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Recolhimento (Recueillement)

CHARLES BAUDELAIRE

Sê sábia, ó minha Dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a tarde; eis que ela vem descendo:
Sobre a cidade um véu de sombras se projeta,
A alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
Sob o flagelo do prazer, algoz horrendo,
Remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
Dá-me, ó Dor, tua mão; vem por aqui, correndo

Deles. Vem ver curvarem-se os Anos passados
Nas varandas do céu, em trajes antiquados;
Surgir das águas a Saudade sorridente;

O sol que numa arcada agoniza e se aninha
E, qual longo sudário arrastar-se no Oriente,
Ouve, querida, a doce Noite que caminha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Florador

Pra saber que dia é hoje,
teria que dizer alguma coisa...
Mas que coisa?
Todas as coisas já foram ditas,
inúmeras e incontáveis vezes.
Pra saber o que dizer,
deveria ter o que beber...
Mas pra quê?
Se dizer, já não mais vale
que o trago que suspiro
do copo que me absorve.
Pra beber qualquer bebida
Teria que fumar uns cigarros...
Mas se o fogo que o acende
já não é o que motiva
mas o que consome,
vale a pena preservar
o vício de ser homem?
Pra ser homem deveria
ter nas mãos cada vida,
palpite, voto e decisão.
Mas por quê?
Se só se vive
apartado, iludido,
embriagado de indecisão.
O melhor é ser o fruto tardio de uma árvore que simula florir pouco a pouco, dia a dia, flor a dor em cada estação.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Se fosse Deus, comeria as montanhas
Entornaria sua seiva num desvario
Na vontade de ver suas entranhas
Beberia todos os rios

Mostraria aos homens que não adiantam os santuários
De ouro negro, suor vermelho e sangue frio
Os faria ver que todas essas coisas me são alheias
Que os meus ídolos são sol, lua, calor e frio

E que não adianta chamar
Pois palavras não há pra alcançar
E que na vontade de encontrar

Não adianta se consternar,baixar os olhos, rezar
Pois seria todo o mundo, pessoa e lugar
Viver é a única oração que se pode dedicar
Se eu algum dia encontrei poesia
Foi nos desvarios, nos sorrisos torpes
Que somente vamos encontrar no baixo ventre
Nas esquinas solitárias de ruas tortas

Não há poesia que não faça curva
E vida que seja essencialmente luminosa

Ela só se dá quando cai o véu
As ruas expõem sua face nua
Onde donzelas ofertam sua carne crua
E andaimes nos mostram o céu

Homens andam atabalhoados a perder o ócio
Ocupações mil – compro ouro e outros
Ali está posta a poesia que sobrevive à ruína
Por trás da cegueira de todo o negócio

E ainda tem os meninos, pequenos saltimbancos
Brincam, brigam, pedem, assaltam
Só não se sabe se chegarão a ter idade para os bancos
Talvez, algum que seja talentoso e versado na arte da sociedade
Roubo também é propriedade.

E no meio, caminha solitário algum desajustado.
Um cigarro entre os dedos, caneta no bolso,
Sempre pronto a inutilizar alguns versos
Idéias na mente, vontades ardentes
De ver toda e qualquer poesia,
Por mais feia, bandida, ou vadia.
Mutar-se em canção inocente.

Beatriz

Esta noite, como em raras noites, sonhei
Você me apareceu, tensa e amargurada
Cabelos que indicavam tormenta e tempestade
Vontades que ultrapassavam qualquer realidade

E eu, como sempre, estupidamente desajeitado
Lancei-me sobre você e pela primeira vez
Nossas almas se tocaram, corpos se enlaçaram
Quis de modo desesperado carregar seu fardo

O amor se deu de forma limpa
Suave e denso como um rio lento
Que a ácida chuva ainda não tocou,
Não teve a ousadia de provocar

Neste dia, foi imensamente difícil acordar
E lembrar-me das tuas mãos aneladas,
Da tua fronte limpa, infantil.
Que a dureza do meu corpo pensou um dia
Poder beijar.

E agora, que te encontras mais distante
Fico a lembrar-me da alegria dos cafés
Dos cigarros que fumei parar te esperar passar
De como o doce de tuas palavras
Retiravam o veneno das minhas

E vejo que tudo que fiz, não foi nada além
De, na fumaça que se esvai, te representar
Continuo a fazê-lo, consciente
Pois pra mim, se algo é impossível
É te esquecer, Beatriz, deixar de te amar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O mundo é feito de homens
Que tão diferentes fazem a vida
E a fazem de forma tão confusa
Como gotas que caem ao simultaneamente,
Mas não são a mesma chuva

Se a vida é uma só
Não deve haver melhor
Calar é também falar,
Ouvir também é ver,
Sentir, pensar

Porém, se as distâncias nos tornam diferentes
Na batida em que nós fabricamos as teias,
Densas e resistentes; não passam de posses,
Poderes, pó ou areia

Já é tempo de desfiar esse tecido,
Desafiar todo o sentido,
Despir a nu cada indivíduo.
Como garotos que brincam na tempestade,
Como soluços bêbados de amor no telhado.

E, pela primeira vez, olhar
Não para o que dista de nós,
Para o que chega até aqui
Deixa um abraço,
Faz o favor de pedir um favor
Ao mostrar-se
Feliz, doloroso, admirado, perdido...

29/12/2009 mas foi feita amanhã...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ironia, como amo a ironia! Que belezas ela esconde!
A ironia é um jeito mais direto de dizer meias palavras.
É uma gargalhada pra dentro. Dama sagaz em línguas permissivas.
Se te pareço sério, devias ver o que se fez da minha vida quando ainda muito jovem
Se triste, era pra você saber o que motiva a minha mágoa agora velha
Se sonambólico, é que o sono não dá conta da visão desses futuros
Se soturno, é que não posso ver para além da alegria dos que morrem

Exposto está o que há de verdadeiro no meu corpo que apodrece
Não há alma saudável que não se enferme nesse mundo já doente
Sorumbático, caminho sob a vontade do mundo
Não por culpa deles, mas pela minha, de ficar mudo.

Me apoderaria de coisas para além das coisas
Faria votos para além do mortos
Veria belezas que não ocultassem certezas
Cantaria canções que não, apenas, prantos

Seria o irmão dos desconhecidos,
O anônimo dos amados,
O amigo dos que se rejubilam
A sede de homens que, leves, cintilam.

Mas perdi todo o muito mais o que dizer.
Termino sorumbático, só porque tenho.
Mas não imaginem vocês que toda vida é desprazer...
Essa é uma tarefa só minha, algo pelo que me empenho.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fuga em Dor Maior

Gosto das fugas sinceras,
Dos que assumem o desgosto.
Não chegue à minha frente
Como quem se alegra!
Tampe a falsidade do seu rosto...
Veja que é feliz o que sente –
Já que nada é o que nos dá,
O direito de franzir o corpo
E fingir que não é gente
Aquele que nos pediu pra amar.
Estão enferrujados
o ferro e a solidão,
o jugo com sua casa,
o medo e a noite vasta,
porém o sonho não.

Estão enferrujadas
a morte e sua aljava,
a faca sob a toca,
porém, o braço não:
quando se ergue, corta.

Carlos Nejar



Copiei de outro blog, se fez inevitável.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dança

Para onde quer que fujamos
O viver-se é inevitável
Não há maldições sem ter planos
De ver todo o inefável

Saímos, então, a correr pelo salão
Eretos em heresia com valsa
Bailando a morte, a dor de quem vê o chão
Mas não vê os pés que se movimentam

Perversos são sim os brancos sorrisos
Da gente amarela que dança a música
E não quer fazer-se para além do impreciso
Jogo de pernas de uma valsa singela

Dancemos aqui ou acolá
Porque mais que o ritmo mude
Por mais que os pares se separem
Será sempre a mesma melodia a tocar.

Viagens

Até hoje, todos os dias e os do porvir
Viver é conviver com a impossibilidade dos possíveis
Existir sob a égide da frustração e sorrir
Amar os porões e devanear sonhos inacessíveis

Trazer ao peito a dor de saber
Saber-se dor, ouvir as portas fechar
Tomar-se por elevado, oco ao quadrado
Beijar o seio e se alimentar do vago

Nadamos no onírico, desarranjado fazer
Na vanidade que aborrece cada subsistir
Sorrindo farças às lâminas, ao poder

Mas, se só lágrimas nos vem às faces
O que é pra ser?
Não há viagens que acabem sem disfarces.

Gustav Klimt

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Caustica
segue minha poesia
por estas linhas tao tortas
revivento, no momento,
tantas palavras ja mortas.

Nautica
distancia entre o saber
e o fazer, que separa
o homem e o seu dever
natural de consciencia.

Plastica
relaçao que acentua
tal distancia entre homens,
transforma, entao, de nua
em vestida, a verdade.

Tatica
e sub-repticiamente
insinuam-nos os planos
vis, de, em detrimento
do homem, im
*plantaçao da

Tecnica,
mitigadora do Ser,
reino e multidominio da
pluralidade do ter,
pura idiossincrasia

Mitica.
Movimento todd o mundo
em busca daqueles deuses
que o tragaram ao fundo
de seus recessos obscuros.

Critica
e avidamente lanço-me
a arrancar do futuro,
antes que o presente tome,
poesia, triste rumo.

Eduardo Cruz

domingo, 8 de novembro de 2009

Willian-Adolphe Bouguereau

Madrugada

Mais uma madrugada em casa.
Mais uma dose de mim,
só pra tornar a coisa toda mais sinistra
Só pra dotar o peito daquele fervor, é ruim.

Mais uma garrafa de café que se vai
E com ela todos os cigarros do maço recém adquirido
Vou fumando, um atrás do outro,
Como se eles agregassem às coisas algum sentido.

Fico pensando em dias passados
Todo nostálgico, querendo rever a saudade
Querendo pensar que tudo ainda tem seu tempo.

Porém, a cada dia, cada sensação,
Não vejo nada além do irreversível de toda situação.
De toda a loucura em que me imiscuí
e onde me eximi de todo pecado de agir.


07/11/09

Sulfúrico

A cada dia que passa eu penso menos! É penoso ver como, agora, prostrado, desfaleço diante desse desagradável viver. Cotidiano é tudo aquilo que pesa sobre olhos cansados, falta é presença única em todos os momentos. Tudo se transfigura num desejo pálido, nada sensual, morbidez que leva a vida adiante. Sem mais, nem menos.
Hoje, nem o ópio consola, não há orientes. Horizontes perderam sua felicidade, ganharam verticalidade; poesia já foi feita, hoje tudo é análise. Não se pode mais perguntar os inocentes por quês, é melhor se resignar e comprar um já pronto.
Amar se torna tarefa impossível, tentação sofrida, violência mitigada por todo o aço. Aço que é invólucro de toda subjetividade, protetor de ouvidos contra qualquer palavra afável, do corpo contra todo gesto.
E já que, "num rosto vazio até um arranhão é um enfeite": escondo os arranhões cá dentro, bem fundo, para que não se observe nada nos vazios das minhas farsas ou faces.
Todos os pontos se tornaram incomuns, não há mais retas para ligá-los, acabaram-se. Ganhamos a cada passo uma fluidez sulfúrica, dolorida, e só quem sente é aquele natimorto, sentimental, convulsivo. Aquele que não coincide com sua imagem no espelho e que há muito já foi ultrapassado por sua sombra.

Quantos dias cinzentos a vida me reserva?
O incrível é que, talvez?, sejam todos eles sempre cinza. Afundados em sua objetividade malquista, num mundo de subjetividades idiossincráticas.

Testamento

Nesses poucos e curtos anos já recebi o meu pão
Em mãos afetivas aprendi a chorar
Senti que o mundo se encaminhava na solidão
Vi amigos partirem sem que os pudesse segurar

Queimei minhas mãos ao tentar apertar
Àqueles que por longo tempo julguei ter paixão
Amei a todos que vi caminhar
Por sendas ecuras em comunhão

E a cada imagem, cada sensação
Vi meu erro, o primeiro, se perpetuar
Quis mudar, colocar meus pés no chão

Fazer de minha vida um desvio do olhar
Tentar me livrar de cada sentimento vão
Mas não consegui deixar de amar,
Irmão.

...

Nada me desce
Todos são estranhos
Mas acontece
Que só em sonhos
A vida aquece a
Todos como somos...

Bêbado

Idéias divergentes sobre objetos parecidos
Objetivos próximos por caminhos esquecidos
Fados idênticos para ombros cansados
Ser humano não é fazer o mundo exato

Tragar cada cigarro como se a vida fosse
Faz sentir o mundo para além da tosse
Onde toda tolice tem seu lugar
Com a impertinência daquele que deixou de lutar

Oração

Mas, ah, se eu não vivesse essa loucura!
Meu deus que seria de mim sem essa boca seca?
Sem essa falta de sono e essa cerveja posta como um fardo?
Teria que rever as minhas vestes e andar preocupado.

Sou miserável apenas por pertencer a cada lado
Tenho tomado distâncias de um mundo
Que me pertence menos a cada segundo
E, sinceramente, todo minuto é enfado.

Tenho apenas a falta de meus vícios
Não há mais volta para eles e, pra mim
Já, desde muito não há, inícios.
Consumi o todo e o por fim

E, daqui, vejo o foda-se em tudo para nós.
Obrigado meu deus!
Por ter me dotado dessa profissão,
Descrença é o que tenho em cada pedaço de vós!

Se

Se não é nossa culpa, sinto muito, mas não sou um de nós.

Poesia?

Um amigo me pediu um dia
Para que fizesse um verso
Que ensinasse a fazer poesia
A verdade é que nunca fiz verso,
Nunca rimei. Não sei criar o que não se cria
Só sei ver o que detesto
E por pra fora o que me angustia.

Se for assim que se faz
Não quero ser poeta
Quero esquecer agora
Que já me escrevi um dia

Poeta é gente mais prosa
E eu só tenho as brincadeiras
Dum peito que ferve em tormenta
E nunca silencia.

Amaram

Amaram-se em pequenas palavras
Em poucos instantes se olharam
Ficaram suspensos em suspeição
Vibraram com a fuga de qualquer emoção

Quiseram até o ultimo instante
Olhar pra qualquer outro olho,
Ouvir qualquer outra tosse
Tocar qualquer outro corpo

Mas cederam sem perceber
Cederam à mais vaga possibilidade
A mais vaga possibilidade de se perder

Perderam-se então,
em olhares convulsivos,
em verdades que se fazem no chão

Urbanissimulador

Os carros me vem de encontro.
Fumaça, ruídos, motores, faróis, gente...
Peraí! Gente!?
Desconhecida gente interessada,
mas não em mim, claro!
e nem eu neles, óbvio!
Prefiro os carros...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ponderações

O que poderia querer
para além de ser humano?
Poderia querer ver
como uma águia, mas imagino-me tal como.
Talvez quisesse ser líquido,
mas posso ser chuva
quando o nosso tempo está seco.
Poderia querer ser tempo,
mas me contento,
sou o presente.
Quereria ser, talvez,
a representação que de mim fazem os outros,
porém, fico feliz, também eu, em desumanizá-los.
Deveria ser criança, mas já, agora, não há infância.
Me perdi,
ficarei por ser assim.

Futuro

Como saber do porvir se tão pouco dele está aqui
Se somos tantos e tão poucos? Com a selvageria de nossos rostos
Conseguiremos fazer sorrir a esse presente já passados
Cada tijolo desses nossos muros por construir?

Com que miríade de loucuras chegaremos lá?
Queremos tanto, mas sem olhar
Sabemos daqueles dias em que toda a distância
Se fará dessa infância.

Todo o pesar e todo contentamento se farão nobres
A caminhada se faz junto aos espíritos pobres
Ou não? Sabemos que o agora nem é pouco nem muito

Já não tenho certeza do que tenho nas mãos
Mas sei que tenho, e tenho a terra dos meus próprios chãos.
Com que presente chegarei a ser futuro?

Em excesso

Sofro de excesso de excessos, não sou exceção!

Paulo

Paulo,
não esqueci
da poesia
e
nem
da dor
continuo
caminhando
de lado.

Para alguém que me entenda

Me espere só um segundo,
Só pra ver como dói a sinceridade,
E como é verdadeiro aquele olhar que te dirigi.
Como pode ser perfeito o ideal,
Ideal de dor que persegue a nós dois, moça.

Queria ter coragem para lhe mostrar esse seu mundo,
Mundo de fugas, de aparências cultivadas.
Que queres tu, com a tua modernidade,
És, na verdade, menos contemporânea a cada dia
Bêbada como hoje, mas conformada como ontem.

Pensa um pouco mulher, como pode ser?
Queres guiar? Então, guia!
Mas pensas antes de me beijar, e,
Se calhar, morda-me o lábio até sangrar.

Desse modo saberei o que você realmente deseja.
Retira-me a sanidade de uma vez!
Bata-me na face, corta-me a garganta,
Por favor! Se não for assim, eu não aceito.

Deus-tino

O que achas que pode contra mim, meu senhor?
Não és tão grande quanto lhe atribuem os tolos,
Em nada és forte, teu culto já não existe em meu mundo
Queres deixar-me em maus lençóis mas, desconheces minha natureza
A fundo, és tão podre, se baseia apenas no infundável de minha vida
Sou imoral porque posso sê-lo, não me dizes nada sobre o que posso,

Sou surdo a seus esforços, não me puxe com o seu braço maldito.
No meu mundo não há musa e não há moira, entendes?
O meu mundo é dos homens factíveis, dos reais.
Dos viciados, dos imorais, esses são a minha imagem e semelhança.
Não é você que só não morre por não existir! Malditos sejamos nós!

Contraditórios em nossas preces
Somos seculares diante do divino
E divinos diante do secular.
Atenção!
Sejamos humanos!
Só isso deve ser respondido,
Diante de todas as perguntas
Afinal de contas, que mais nos resta.

Sou o que sou, amaldiçoado ou não.
E que me importam as maldições?
Todas frutos de perversões de nosso olhar
que faz o possível pra se desviar daquilo que é evidente.
Senhor destino, lhe reservo um beijo frio
O beijo daquele que sabe que nada mais é possível diante da sua figura.
Figura que já há muito não é pintada.

Rubros Olhos

Sábado às dez pras quatro da manhã
Só me resta a última dose da garrafa de conhaque
Uns vagos pensamentos sobre as coisas que deveria ter feito
Mas, em contrapartida, muito do rubro de seu cheiro.
A comoção me invade,
fico pensando no silêncio que nossas poucas palavras fizeram

Fico imaginando teus olhos que ainda brilham diante dos meus
Brilham raros, não são olhos que se dêem ao desfrute
E por vezes, se recusam, sublimes, a olhar.
Como poderia ser diferente, meu deus minúsculo?!
Isso me proporciona mais um gole de angústia.
O que devo esperar?

Não sei se fiz a mais ou a menos,
sei que fiz o que pude, e,
poder pouco é muito comum!
me desacostumei das palavras,
sentir me causou esterilidade verbal.
somente aos olhos e aos ouvidos cabem minha felicidade.
E se sinto é só por uma vontade que me escapa ao controle.

O problema,
É que,
Diante
Dessa face
Rubra,
Só me resta,
Abandonar
A razão.

Não poderia fazer nada além disso,
a vontade quer chegar à potencia.